7 de abril de 2007

Ana

O relógio a despertou, no mesmo horário de ontem: 5:50 da tarde. Os olhos se abriram com uma dificuldade enorme, como se tivessem jogado caminhões de areia dentro deles... O som intermitente do despertador era distante, mas mesmo assim a incomodava muito. Com muita dificuldade tocou o botão, fazendo parar aquela maquininha infernal. Percebeu que estava completamente torta na cama. O lençol a enrolava como a uma múmia, sepultada naquela cama há séculos. Conforme tentava despertar, ia percebendo as nuances do quarto: a janela estava aberta uns dois dedos, talvez para ajudar a livrar a casa do ar estagnado; o vento balançava a cortina. Um pequeno ventilador girava de um lado para o outro, como o único vigia de seu sono anestesiado. Umas poucas gotas de chuva na janela; talvez estivesse começando a chover, nada incomum naquele outono parado.

Sua mão ainda estava sobre o despertador. Nesse momento, reparou nas suas mãos e braços. Pálidos, como de costume, mas talvez nesse momento um cinza caberia melhor como a cor da sua pele lisa, sem pêlos. As unhas estavam grandes, e o esmalte marrom descascado; sempre tinha preguiça de tirá-los quando necessário. Havia um esparadrapo no indicador esquerdo, mas não se lembrava de ter se machucado.

Estava visivelmente mais magra, mas já não se preocupava com isso já fazia algum tempo. Sua balança estava devidamente esquecida sob o armário da pia do banheiro. O cardápio de sua dieta caído no chão da cozinha, junto com o telefone do médico.

Finalmente conseguiu largar o despertador. Instintivamente sua mão procurou o maço de cigarros no criado-mudo. Ainda deitada, acendeu um cigarro, olhando para a janela. Via apenas a ponta de um ou outro prédio, e o céu nublado, que anunciava chuva forte. Pensou em várias coisas: poderia ligar a tevê, mas logo desanimou; talvez um livro, mas já tinha lido todos os que tinha e poderiam interessá-la. Alem disso, não agüentava mais livros de auto-ajuda. Uma revista, talvez? Há meses não comprava uma revista. Finalmente pensou num café quente, que a ajudaria a despertar. Num esforço repentino, sentou na cama, apagou o cigarro no cinzeiro cheio e levantou-se, rumo a cozinha.

O cenário que a cozinha montara denunciava a festinha solitária que fizera algum tempo antes. Uma garrafa de vodka sobre o balcão, alguns limões numa tábua, e a faca suja de sangue. Lembrou onde machucou o dedo. O aparelho de som sobre uma cadeira ainda estava ligado, tocando um CD velho. Um jazz antigo, talvez. Os últimos comprimidos da cartela ainda espalhados ao lado da tábua de madeira. Enfim, tudo estava bem bagunçado, mas ela só queria tomar uma xícara de café. Finalmente achou a cafeteira num canto, ligada, que mantinha o café ainda quente. Quando segurou a jarra, levando-a em direção a pia, a alça se rompeu, e caiu no chão. O chão ficou repleto de cacos de vidro, e o café se espalhou ao redor dos seus pés. Ficou alguns instantes atônita, e lentamente se agachou, na intenção de pegar os restos da jarra de café. Então, ali mesmo, agachada, começou a chorar, olhando para o café morno e o vidro, ali entre os dedos dos pés.

um velho fragmento que continua...


6 comentários:

Tila Miranda disse...

A imagem da degradação, meu amigo.
A degradação em cacos.





Bom relembrar este texto.

Tila Miranda disse...

hahahah sabia que as pessoas nao iam entender
não é que eu não goste de café
pelo contrário
eu só nao acho que devemos ficar se utilizando de coisas do passado. isso vale pra um café amargo e velho.
provavelmente ela fez outro.

rafael Passos disse...

Com a solidão realmente não se brinca. É uma enorme história dos primeiros minutos do dia de Ana. As Anas sofrem tanto assim? Tenho uma irmã com esse nome. Ela pena na vida. Batalhadora mesmo. Sim. Todas as Anas - pelo menos as que eu conheço - sofrem. Os detálhes aqui neste texto marcam, rapaz. Você é um escritor nato.
Vou lê-lo mais vezes. Prepare-se.
Abração!
;)

Saci disse...

Bom...bom...

Já havia lido este aí!

tá melhor?

leo disse...

bem legal, bem legal !
gostei bastante.. você e sua amiga tila têm o dom da palavra ! ^^
abraço

Túlio Carapiá disse...

Muito bom cara... já gostava do texto, mas relê-lo sempre me anima.

As imagens surgem naturalmente... muito bom.

Forte abraço!